MASCARADOS

Nunca gostei de dialogar em grupo. O motivo, meu caro leitor, é simples como a água: as pessoas, quando estão em grupo, nunca são tão sinceras quanto as que estão em dupla. E as pessoas que estão em dupla nunca são tão verdadeiras quanto quando estão sozinhas no banheiro de casa. Quanto maior a plateia, mais volumosa é a máscara.

Quando vou para a UEPB trabalhar, sento-me sozinho à mesa dos fumantes às seis e meia da manhã. De repente, vem ter comigo um colega. Pede-me licença; consinto. Acendo um cigarro. Ele pede-me um cigarro; dou-lhe o cigarro e o fósforo. Súbito, me revela a dor de ver a mãe afundar numa doença degenerativa que, aos poucos, lhe tira a fala e os movimentos do corpo.

Peço-lhe paciência. Digo-lhe que há, hoje, inteligências artificiais que reproduzem fielmente as emoções e a fala através da leitura ocular do paciente, e que, enquanto ela pudesse digitar numa tela de computador "Eu te amo" ou enviar-lhe o emoji do chinelo pelo mensageiro virtual, estaria viva e seria a sua mãe. Cito o Hawking como referência, e os áudios do presidente da República cantando axé. Ele sorri e anima-se.

Dez minutos depois, estou cercado por dois, três, meia dúzia de colegas. Neste momento, penso em meu íntimo: "Ih, vai começar o teatro". Então começa o teatro, ou talvez o jogo social de quem pontua mais. Quem leu mais livros? Quem assistiu mais filmes de Tarantino? Quem foi à Bahia? Quem bebeu mais cerveja no bar da Lora no final de semana? Quem varou a madrugada no Tenebra? Quem comprou o copo Stanley? Quem beijou mais bocas no último mês? Quem foi ao show do Roger Waters quando veio ao Brasil?

"Papai pagou pra mim", disse a moça com a camisa do Che Guevara. Ali fico eu, calado, observando as nuances, as inflexões e as pausas das falas, os trejeitos individuais de cada personagem. Ali, através das pupilas, enxergo a mentira e a verdade, a alegria e a dor. Já paguei muito caro por isso. Já perdi namoradas por isso. Por não participar do ato, apenas observá-lo, como se estivesse na 306ª cadeira do Teatro Municipal.

Eis que o meu terceiro cigarro acaba. Já são sete horas. Levanto-me da cadeira. "Já vai, Rael?", pergunta a moça com a camisa do Che Guevara. Respondo a ela: "Preciso fazer vendas hoje. Boletos...". Ergo-me da cadeira, tomo a alça da maleta com os livros e me afasto do semicírculo, profundamente absorto e absolutamente sozinho.

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