“Fotografo para ser lembrado e para que lembrem do que foi e como foi”, diz o fotógrafo Rodri Mattos, em entrevista à Revista Brasilis


Foto: instagram/rodrimattos

“Fotografo para ser lembrado e para que lembrem do que foi e como foi”
, diz o fotógrafo Rodri Mattos, em entrevista à Revista Brasilis


Rael Brasilis: — Quem é Rodri Mattos?

Rodri Mattos: — Rodri Mattos… um fotógrafo de Goiânia-Goiás, de 35 anos, que fotografa seu cotidiano desde os seus 17 anos de idade, ama registrar estilos de vida, moda e as cores.

Rael Brasilis: — Como a fotografia surgiu na sua vida?

Rodri Mattos: — Eu estava morando em Barcelona, na Espanha, tive um relacionamento com uma pessoa da moda, e, assim, comecei a frenquentar castings para acompanhá-lo, e, em um desses castings, recebi um convite de Sergi Pons para modelar em um projeto de sua autoria, para Neo2Magazine, nesse rolê, conhecemos Toni Pérez (Sbastien), diretor-criador da Vanity Teen, que até então não tinha a Vtmag ainda, mas fotografava rapazes para seu futuro projeto autoral: Vtmag. E assim comecei a acompanhá-lo, e a dar assistência em seus ensaios. Vendo tudo isso acontecer eu também me interessei em fotografar. Queria criar. Eu também queria dar minha opinião, o meu ponto de vista… e assim fiz, ganhei minha primeira câmara… ganhei aos 17 anos, presente da minha mãe.

Rael Brasilis: — O que você mais ama fotografar?

Rodri Mattos: — Eu amo fotografar tudo em geral. Onde tenha uma boa luz, sombras e cores eu estarei lá.

Rael Brasilis: — O que você odeia fotografar?

Rodri Mattos: — Diria que não tem nada que eu odeie fotografar, tudo pode dizer alguma coisa no momento certo. Porém, eu não gosto de fazer fotografias em preto e branco, acho mórbido… Amo ver obras em preto e branco; artistas que fotografam em preto e branco têm minha admiração, mas eu não gosto de fazer…

Rael Brasilis: — A fotografia te trouxe mais dinheiro, amizades ou experiências?

Rodri Mattos: — Trouxe mais experiências. Praticamente a cada dia que pego a câmara é uma experiência nova: novos personagens, novas luzes, sombras, cores. Eu amo isso.

Rael Brasilis: — Qual o retrato mais feliz que você já registrou e qual o mais triste?

Rodri Mattos: — Eu fiquei muito feliz em colaborar com o diretor de artes da Elle Brasil, Luciano Schmitz, para primeira edição da Elle Décor. Eu sou fã do trabalho do Luciano, e ele me deixou ainda mas feliz em pedir, para esse projeto, fotografias com o meu olhar pessoal, sem roteiros, e participar desse projeto ao lado do diretor e fotógrafos que também admiro, em especial, o grande Luiz Braga, que sou super fã, realmente me deixou muito feliz em participar e guardo essa edição em casa a sete-chaves.

A fotografia mais triste, diria que não tem, já que uso a fotografia justamente para me fazer feliz. Mais confesso que registrar o cotidiano na pandemia da COVID-19 foi extranho, difícil, diferente. Acordar todos os dias e ouvir que as mortes aumentaram, ir ao mercado e esperar na fila para adentrar, não poder visitar nem abraçar meus avós… são fotos de um cotidiano triste que não quero voltar a viver nem registar, se Deus quiser!

Rael Brasilis: — Fotografar os pobres é mais importante do que fotografar os ricos?

Rodri Mattos: — Eu penso que todo momento, ou pessoa, é importante. Depende da narrativa. Têm ótimas e necessárias fotografias contando histórias de pobreza, como faz Sebastião Salgado com excelência, como também têm ótimas fotografias de pessoas de poder, como faz o fotógrafo Luiz Garrido, por exemplo. É tipo aquela frase do Bresson sobre o “momento decisivo”, e penso que esse momento pode estar em qualquer lugar. Agora, basta não se limitar e observar. Eu tento muito não me limitar.

Rael Brasilis: — Em praticamente todas as suas fotografias podemos ver a presença da cor escarlate. Por quê?

Rodri Mattos: — Pra mim, é a cor do Brasil — vermelho como brasa! Sangue, simboliza a vida, o quente, o intenso o brasileiro, o poder. E eu pretendo que as pessoas tenham esses sentimentos ao ver minhas fotografias. É o vermelho do real vivo, do ser humano brasileiro.

Rael Brasilis:  “Se o comunismo serve, ele deve continuar. Mas se o comunismo também falha, então ele deve ser posto de lado e a luta continuará, não contra os povos, nem entre os povos, mas pela própria vida.” — Comente sobre esta frase da escritora Pearl Buck.

Rodri Mattos: — Penso que a união faz a força, que devemos cuidar uns dos outros, porque somos todos iguais. E se quem governa não cumprir com as promessas feitas, a gente deixa de apoiar. Devemos nos apoiar em primeiro lugar, uns aos outros, para o bem da população e fazer uma nova revolução sempre que preciso, porque o mundo é para evolução.

Rael Brasilis: — Há um retrato de sua autoria no qual uma mão segura um buquê de flores em chamas; na legenda da foto você escreveu “Falso amor”. Quantos falsos amores você já teve, Rodrigo?

Rodri Mattos: — São vários eles! Muitas vezes colocamos expectativas em pessoas que amamos e quando elas têm a oportunidade de mostrar, ou fazer algo por você, muitas das pessoa não fazem, mesmo podendo fazer. São esses falsos amores que quando precisam de você, te amam e quando acham que não precisam mais, mal lembram que você existe. É sobre isso. Falso amor.

Rael Brasilis: — É verdade que você está desenvolvendo um projeto fotográfico onde você tem como foco principal pessoas LGBTQIAPN+ empoderadamente orgulhosas de si? Conte-nos mais sobre este projeto.

Rodri Mattos: — Sim, é verdade. Faz um ano e, até então, quatro ensaios prontos, e quero muito mais. É um tema que eu sinto a vontade de falar, de criar. Quero colaborar com a comunidade, quero conhecer pessoas empoderadas que, mesmo no Brasil, o país que mais mata LGBTQIAPN+ do mundo, são pessoas livres, seguras de si, empoderadas. Me inspira muito esse poder. É muito controverso… o país que mais mata pessoas LGBT’s é também o país de Pablo Vittar, a drag mais seguida nas redes sociais do mundo. Isso nos faz pensar que ainda há esperança. A luta continua. Temos que nos unir de todas as formas possíveis.

Rael Brasilis: — Qual ou quais fotógrafos do seu estado, na sua opinião, além de você, estão fazendo trabalhos importantes para a cena de Goiânia?

Rodri Mattos: — Eu gosto muito do trabalho de Dalton Paula, ele fotografa pessoas da comunidade quilombola de Goiás, revela essas imagens e as pinta em quadros. É um trabalho muito delicado, super lindo. Eu adoro.

Rael Brasilis: — Há uma frase-conceito do Glauber Rocha que é: “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Para você, o que é mais importante, uma câmera na mão ou uma ideia na cabeça?

Rodri Mattos: — As duas coisas. Mas, primeiro, uma ideia na cabeça, logo registra a ideia sempre. Então, as duas coisas se complementam perfeitamente.

Rael Brasilis: — Quais sentimentos você sente subitamente ao observar e fotografar o cotidiano das ruas do Brasil?

Rodri Mattos: — Ao fotografar o cotidiano das ruas no Brasil eu observo como uma música, e, como o Brasil ama música, o quanto os brasileiros são ligados a música. Isso pode explicar a simpatia dos brasileiros – povo de fácil acesso, de boa energia. Cada país tem sua estética, sua luz… e a luz do Brasil é única: tem alegria, tem ritimo. O Brasil é muito músical, um país de sol praticamente o ano todo — olha que privilégio. O Brasil tem uma luz simples e confortável. Te convido a observar o final de tarde no cerrado goiano o espetáculo é único e garantido. É tipo uma música de ritmos perfeitos, tudo casa.

Rael Brasilis: — O que você acha que virá após a morte: a reencarnação, o purgatório, a vida eterna, o eterno retorno, ou o silencioso vazio do Nada?

Rodri Mattos: — Penso que a reencarnação... Acho que aqui se faz, aqui se paga. Aqui podemos aprender como podemos retroceder. Temos que fazer as escolhas certas e nem sempre fazemos, e quanto menos fazemos certo, mais vamos reencarnar até aprender e evoluir espiritualmente. Penso que vai por aí.

Rael Brasilis: — Por que você fotografa?

Rodri Mattos: — Fotografo para ser lembrado e para que lembrem do que foi e como foi. Me permite expressar meus sentimentos a fotografia. Me permite falar um pouco do que penso, o que sinto e isso me faz bem. Também gosto da ideia de congelar momentos por até milhares de anos. É, no mínimo, curioso poder fazer isso. Parece um super poder (risos).

Rael Brasilis: — Um filme...

Rodri Mattos: — Queen Slim.

Rael Brasilis: — Uma música...

Rodri Mattos: — Amy Winehouse – Back to Black.

Rael Brasilis: — Um livro...

Rodri Mattos: — Muitas Vidas Muitos Maestros – Brian Weiss.

Rael Brasilis: — Qual pergunta você gostaria que eu fizesse a você que eu não fiz?

Rodri Mattos: — “Um pensamento marcante?…”

Vou terminar com meu mantra de Clarice Lispector. Em uma entrevista, quando perguntaram o que ela pensa sobre ser uma escritora renomada, profissional, ela disse: “Eu só escrevo quando eu quero, eu sou uma amadora e faço questão de continuar a ser amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo, de escrever, ou então em relação ao outro. Agora, eu faço questão de não ser profissional, para manter minha liberdade”. Eu amo o poder e a liberdade dessa frase.


Brasil, 03 de agosto de 2023.




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